Cinéfilos Online
Cinema por quem é louco por cinema


Segunda-feira, Dezembro 20, 2004  

ENTREGORÓS E PALAVRÕES



É um tanto estranho ver o presidente da república, que normalmente aparece na televisão fazendo discursos sobre coisas das quais não tenho o mínimo conhecimento, falando aquilo que realmente interessa - Pinga, futebol e a política real, na língua que é entendível e compreensível por menos relacionados à ligação com o mercosul.

A idéia em si dos dois documentários, Entreatos e Peões, em cartaz no "circuíto de arte" de São Paulo, é interessantíssima - O primeiro está focado no dia-a-dia de Lula durante a campanha presidencial, mas não no que é público - A equipe estava nos momentos íntimos do então candidato, registrando seus diálogos mais reservados e pensamentos.

Naquelas passagens, vê-se em Lula o que provavelmente os eleitores esperavam que ele fossem - Uma encaranção do povo brasileiro com capacidade de liderar, que fala palavrões, bebe pinga, joga futebol, conversar com os netos, fazer a barba. É um cotidiano aparentemente estressante, mas o filme, mesmo que em tom documental, transforma o homem visto pelo povo como presidente, chefe da nação, em um humano como qualquer outro.

Destacam-se as passagens onde Lula comenta sobre sua vida de metalúrgico, descreve como fazia para sobreviver, seu tempo de uma hora pra "tomar uns gorós, almoçar e jogar futebol", diz que tem saudade dos amigos, mas não da fábrica.

Amigos que são resgatados por "Peões", do mestre Eduardo Coutinho. Ele vai buscar histórias de ex-metalúrgicos, os colegas de Lula que não conseguiram "subir na vida". O documentário começa no Ceará, e volta até São Bernardo, nas raízes do movimento grevista.

Outra vez, nota-se o talento de Coutinho para registrar depoimentos de figuras sensacionais, quando não bizarras. A faxineira que quer "levar café para Lula" no planalto é um exemplo. A senhora que disserta sobre o fato de chamar o filho de "filho da puta" não fica atrás.

Peões falha, porém, em seu curto tempo, que prejudica o registro, impedindo que mais pessoas pudessem depôr. Dos que depões, alguns não têm a mesma profundidade de outros, o que causa quebras de ritmo e interesse.

No conjunto da obra, ainda assim, Entreatos e Peões formam uma belíssima obra sobre a situação política brasileira, e muito mais do que isso, sobre o que há por trás do presidente Lula e suas reais características.

Entreatos
De João Moreira Salles.
Brasil, 2004, 125 Min.

Peões
De Eduardo Coutinho.
Brasil, 2004, 83 Min.

postado por Carlos Massari |
| 20.12.04


Sexta-feira, Dezembro 17, 2004  

Final de ano chegando, hora de começar a se movimentar. Listas, premiações, comentários, etc.

Portanto, aguardem aqui no Cinéfilos os Tops 20 de Melhores e Piores do ano e claro, o prêmio Cinéfilos Online, obviamente fictício...

postado por Carlos Massari |
| 17.12.04


Quinta-feira, Dezembro 16, 2004  

ÉPOCA ERRADA


"Minhas primeiras palavras foram New York Herald Tribune! New York Herald Tribune!"

Eu definitivamente nasci na época errada, no lugar errado. Época onde minhas paixões estão em crise, onde meus sonhos já foram praticamente extingüidos do mundo com a força de uma bomba atômica. O sistema está consolidado, a população é composta basicamente por viciados nas baladinhas de fim de semana e no lanche Big Mac do Mc Donalds. Viver a época das minhas paixões é algo bastante complicado hoje em dia, só se forem encontradas pessoas para compartilhá-las. E meus amigos, isso é praticamente impossível.

A segunda saída seria o cinema. Alojar-se dentro do cinema, buscando nele esse tipo de obra, de sonho. E foi justamente por isso que "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, serviu como uma pancada gigantesca na minha cara. É aquilo, simplesmente aquilo, o que eu queria ter vivido. É um filme sobre pessoas que compartilham de minhas paixões, e mais do que isso, é um filme sobre minha vida. Minha vida que eu infelizmente ainda não consegui viver.

Olha-se para a tela e vê-se uma garota linda discursando sobre Jean-Luc Godard, falando diálogos de Acossado e imitando cenas de Bande à Part. Onde existe isso hoje em dia? Vale lembrar que aquela era a época da revolução estudantil, da nouvelle vague, da liberação sexual, auge das drogas, do rock'n roll. Esse é um filme sobre os sonhos que se relacionam a todas essas coisas, envolvendo seus três personagens no cinema, na revolução, no sexo, nas drogas e na música.

Foi um direto no meu queixo ver aquilo na tela. Uma vida perfeita, a luta pela liberdade, o cinema movendo as idéias, girando o mundo das pessoas. Imaginem a sensação de ter visto Pierrot le Fou no cinema, em sua estréia. Imagine a sensação de ter participado de tal revolução, de ter lutado por um mundo melhor. Os sonhos daqueles sonhadores estão praticamente mortos, e apenas o cinema pode trazê-los de volta.

Não nego que há grandes problemas narrativos aí no filme, em seu início, sendo mais preciso. Os personagens também parecem ser um pouco mal construídos, principalmente Michael Pitt, que sofre uma tremenda transição durante o filme (Não sei se proposital ou não, mas bastante forçada, ao que me parece). São problemas que se apresentam na meia hora inicial e logo somem em meio a tantas referências.

É filme para cinéfilos. Para amantes da liberdade. Para olhar para a tela, ver alguém citando a Cahiers du Cinema e perceber que sim, tudo em relação a você está errado, principalmente o lugar e a época.

Não é o melhor filme do ano, é só meu preferido. Ele é perfeito, mas tem defeitos bem perceptíveis.

(Também vi Nina, desastre completo, um horror sem proporções).

The Dreamers
De Bernardo Bertolucci. Com Eva Green, Michael Pitt, Louis Garrel
França, 2003, 130 Min.

postado por Carlos Massari |
| 16.12.04


Sábado, Dezembro 11, 2004  

SUPER HERÓIS



É uma tremenda falta de criatividade iniciar um texto sobre Os Incríveis com o título "Super Heróis". Porém, quando é revelado que o principal tema na realidade é outro, a coisa muda um pouco de figura. A não ser que o outro seja algo do tipo "Spider Man". Fique tranquilo caro leitor, não é.

Refiro-me a "Contra Todos", produção nacional elogiadíssima em algum festival que não me recordo qual. O título agora parece um prefixo, "Super heróis contra todos", talvez seja um filme sobre os mascarados que agem na periferia paulistana, impedindo o crime e exaltando a liberdade dos pobres (E põe pobres nisso) mortais. Os super heróis, de verdade, são auto-denominações, ou pelo menos imagino que sejam - É assim que gente como Cláudio Assis e esse Roberto Moreira devem se ver.

O pensamento dos "cineastas" ao iniciarem nova obra é o choque. Tudo voltado para o mais intenso choque, característica número um, câmera tremendo. A câmera deve tremer o tempo inteiro. A câmera deve trever para mostrar alguém comendo batata frita ou para mostrar alguém com um revólver na mão. E claro, a imagem deve ser granulada. É óbvia também a necessidade da presença de uma penca de cenas desnecessárias, como uma filha sendo espancada pelo pai ou uma discussão na mesa de jantar tomando proporções dignas de serem filmadas por Wolfgang Petersen.

Também parece ter virado chavão alguma cena relativa a açougue, aqui é a preparação de uma "galinha ao molho pardo", que não sei se é exatamente como o filme diz (Depois perguntarei a Sra. minha mãe). O choque, ah, o choque... O choque barato é extendido até o limite quando os personagens revoltados, a mãe puta, o pai assassino e a filha drogada (O filme é real, pô!) ficam com raiva uns dos outros (Não não, já tinham desde o começo, elas foram ampliadas só) e passam a se matar, ou ao menos tentar fazê-lo.

A família paulistana segundo Roberto Moreira é uma espécie de Cidade Alerta, "Matou a Família e foi ao Cinema" sem trilha sonora de guitarras progressivas, com uma faixa de "ESSE FILME É REAL! EXTRA EXTRA, FAMÍLIA SE MATA E O BAIRRO INTEIRO ENTRA NO MEIO!" estampada em seu pôster, como se fosse filme denúncia da hipócrita sociedade brasileira, sociedade que qualquer ser com o mínimo de presença cerebral está cansado de saber que é hipócrita, que os crentes na verdade são matadores adúlteros (Sem generalizar), e não precisa de demonstrações práticas de cineastas toscos para saber disso. Os mesmos devem saber que a população de pessoas malvadas/irrecuperáveis não é 100%, é isso o que mais irrita em filmes como "Contra Todos" e "Amarelo Manga".

Mudando rapidamente o foco, Os Incríveis, animação da Pixar, satírica, levemente ácida sem deixar de ser voltada para crianças - Aqui sim há super heróis, não os super heróis do cinema nacional, e sim os super heróis dos rios de dinheiro Hollywoodianos, das fórmulas que atraem massas às salas de projeção e geram milhões para os cofres das produtores. Não, acredito que Brad Bird não tenha pensado em tal metáfora.

Assumindo um pouco de modéstia, Os Incríveis tem um início bastante plausível, tentando mostrar um lado "pessoal" dos heróis, tal coisa ganha relevância com uma lei que os proíbe de aparecer, uma tirada intelingentíssima de um suicída que processa o Sr. Incrível por este tê-lo impedido de ir ao maravilhoso reino dos céus. Porém, ao término da primeira hora de projeção é assumida uma mesmice generalizada, os dilemas existenciais ficam repetitivos e o desfecho previsível.

A partir daí, nada mais é igual, o nível cai e o filme se mostra bastante medíocre em sua resolução final, não chegando ao nível das demais obras da Pixar.

Contra Todos
De Roberto Moreira. Com Leona Cavalli, Sílvia Lourenço, Giulio Lopes
Brasil, 2004, 96 Min, Em Cartaz.

Os Incríveis
De Brad Bird. Sei lá de quem são as vozes.
EUA, 2004, 124 Min, Em Cartaz.

postado por Carlos Massari |
| 11.12.04


Segunda-feira, Dezembro 06, 2004  

INVOLUÇÃO



Entre os muitos extras do DVD de "O Despertar da Besta", encontra-se uma pérola absoluta - O relatório da censura, na época da ditadura militar, proibindo a exibição do filme em terras tupiniquins. Os excelentíssimos senhores censores afirmavam, entre outras coisas, que "Se pudesse, prenderia o diretor disso pelo assassinato à Sétima arte" e "Isso não pode ser lançado, pois representa uma clara ameaça à evolução do cinema nacional". Gente de mente aberta, essa.

A regressão, ou involução, como diz o título deste post, é claríssima mesmo, levando-se em conta que talvez regressão tenha virado sinônimo de metalinguagem. "Mas que filme regressor!". De fato, esse filme de José Mojica Marins, levando-se tal tese em conta, seria um marco na regressão. Mojica capricha ao misturar metalinguagem + surrealismo + ironia, e o faz de maneira magistral, arrebatadora, colocando uma narrativa sem continuidade para "provar o que diz um renomado psiquiatra".

O psiquiatra injeta LSD em quatro viciados para mostrar os efeitos da droga sob a imagem de Zé do Caixão. Os delírios são multi-coloridos, psicodélicos, com uso de músicas ora orquestradas, ora singelas, ora irônicas. Passando de trilhas sonoras de filme conhecidos para MPB, Roberto Carlos tocando enquanto várias mulheres nuas são chicoteadas em uma tela laranja avermelhada.

Porém, o mais marcante é quando um programa de televisão é colocado dentro do filme, e Zé do Caixão (Mojica) tem seu cinema julgado por diversas pessoas, do locutor Sílvio Luís ao compositor Adoniram Barbosa. Como se fossem censores culturais, comentam o cinema em si, as imposições e as regressões (entenderam?) no cinema de Mojica.

Antes de qualquer outra coisa, é uma experiência visual marcante, com suas cores atingindo os sentidos, seus delírios de LSD tornando quase realidade, a teoria do psiquiatra fazendo sentido instantâneo dentro de você, no uso dos tóxicos sendo comparado ao uso de Mojica, "extra-sensorial".

O detalhe é que no mesmo parecer da censura, o cidadão diz: "Mas tenho que parabenizar os profissionais pela qualidade do som e da imagem". A condenação era ao surrealismo, então? A mente era ainda mais aberta que eu imaginava.

Ritual de Sádicos (O Despertar da Besta)
De José Mojica Marins.
Brasil, 1969, 92 Min. Disponível em DVD.

postado por Carlos Massari |
| 6.12.04


Sexta-feira, Dezembro 03, 2004  

TRIÂNGULO



É um tanto banal iniciar um post sobre três filmes com o título "Triângulo". Ou seja, este é um dia no qual estou distribuindo criatividade, apesar de que o fato de um dos filmes ser um triângulo amoroso possa contribuir para um suposto perdão dirigido à minha pessoa. Considerarei vosso perdão como um verdadeiro milagre, que talvez traga comentários de volta para este esquecido blog.

Milagre, de fato, é a estréia de Lilya 4-Ever em São Paulo. Após anos de atraso, a obra-prima de Lukas Moodysson (Pleonasmo) chega à cidade com duas ou três cópias espalhadas entre tantos quilómetros quadrados. Não lembro se escrevi ou não sobre ele por aqui (Acho que não), mas vale relembrar um pouco.

Moodysson faz aqui uma espécie de valorização à pureza, à liberdade de ser, à necessidade da liberdade, mais precisamente, que acaba levando uma garota, abandonada pela mãe, como tantas outras, a se prostituir. Aquela é uma história baseada em tantas outras histórias reais, coisa que me lembra de Maria Cheia de Graça, filme de Joshua Morton exibido na última Mostra.

A diferença básica consiste na mão que Moodysson tem para transformar a história tão real e tão pesada em pura poesia, em poesia triste, leve, seca, mas em poesia. Em suas demonstrações populares, citações a Britney Spears e relações entre adolescentes. Lilya não é diferente da lésbica de Fucking Amal ou de nenhum dos habitantes da comunidade de Together, é como se todos estivessem lado a lado indo para caminhos diferentes.

É um diretor que escolhe cada vez mais mostrar personagens sem julgá-los, acompanhando de longe suas desventuras em meio ao mundo.

Se for para falar de desventuras, porém, temos que falar de Bridget Jones. A continuação detonada pela crítica americana chega ao Brasil e não, não é tão ruim assim. Seguindo o manual prático das comédias românticas criada por mim aqui há cerca de um ano, difere das outras em apenas um detalhe - Há um triângulo amoroso, e não apenas o mocinho/mocinha que se apaixonam.

Bridget Jones é um filme com estilo, porém, todo engraçadinho e metido a irônico na narrativa, o que acaba parecendo meio pretensioso, mas sim, é um recurso legal. Destoa do monte de clichês existente no meio daquilo, apesar de também já ter virado clichê tal narrativa. Entre clichê e clichê, funcionam algumas gags típicas, quedas de personagens, brigas, etc, coisa de se esperar.

O humor inglês, porém, é mais inteligente que isso. O filme deve em inteligência, mas vira um bom típico pastiche pop.

Completando o nosso querido triângulo aqui, chegamos a Spartan, novo filme de David Mamet. O cartaz anuncia, "Mamet é um ilusionista que usa imagens no lugar de cartaz", OK, vêm aí outras quatrocentas centenas de reviravoltas. Quem já viu coisa dele está acostumado.

De fato, Mamet arquiteta esse tipo de filme como poucos, faz reviravoltas lógicas muito bem, sem descambar para "os espíritos do mal apagaram minha mente, haha!". Aqui vai aparecer um problema de que tudo se resolve cedo demais, sobrando ainda uns 20 minutos para encheção de linguiça desnecessária e inserção de outra virada, dessa vez desnecessária, à trama.

Mas é inegável que prende a atenção, e bastante. Val Kilmer surpreende, tem uma boa atuação e vem até se destacando em filminhos independentes ultimamente (A Alma de um Homem), bom sinal. E não sei como finalizar isso.

Ok, não seus imbecis, aquela foto não é da Bridget Jones.

Lilya 4-Ever
De Lukas Moodysson. Com Oksana Akynshina, Arytom Bogucharsky, outros trezentos russos de nome esquisito.
Suécia, 2002, 109 Min.

Bridget Jones: The Edge of Reason
De Beeban Kidron. Com Reneé Zelwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jacinda Barret.
Inglaterra, 2004, 110 Min.

Spartan
De David Mamet. Com Val Kilmer, Derek Luke, Tia Texada.
EUA, 2004, 109 Min.

postado por Carlos Massari |
| 3.12.04


Quarta-feira, Dezembro 01, 2004  

FILMES DO MÊS - NOVEMBRO

Alguns têm comentários maiores aqui, outros no Vagabundisse. Lista abaixo:

01 - Os Educadores (Hans Weingartner 04) ****
02 - Mila de Marte (Zornitsa Sofia 04) *
03 - Old Boy (Park Chan-Wook 04) ****
04 - Lost Zweig (Sylvio Back 03) *
05 - Zatoichi (Takeshi Kitano 04) **
06 - 5 x 2 - Five Times Two (François Ozon 04) **
07 - Garotas do ABC (Carlos Reichenbach 03) ***
08 - Mar Aberto (Chris Kentis 04) *
09 - O Homem que Amava as Mulheres (François Truffaut 77) ****
10 - Com a Bola Toda (Rawson Marshall Turber 04) *
11 - A Má Educação (Pedro Almodovar 04) **
12 - O Exorcista: O Início (Renny Harlim 04) 0
13 - Taxi (Tim Story 04) *
14 - Os Esquecidos (Joseph Ruben 04) 0
15 - Bem-Vindos ao Paraíso (Alan Parker 90) **
16 - Edifício Master (Eduardo Coutinho 02) ****
17 - Sob o Domínio do Mal (Jonathan Demme 04) **
18 - O Prisioneiro da Grade de Ferro (Paulo Sacramento 03) ***
19 - Como Fazer um Filme de Amor (José Roberto Torero 03) *
20 - Gotas D'Água em Pedras Escaldantes (François Ozon 00) ***
21 - Muito Mais que um Crime (Constantin Costa-Gavras 89) ***
22 - Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho 01) ***

postado por Carlos Massari |
| 1.12.04
archives
links
Anotações de Cinéfilo
Curral Cine
Cine Majestic
Blog do Buzz
Nada Limbo
Orionlog
Screening Log
LFM
Tiago Superoito